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Certa tarde, a equipa de cuidados paliativos veio pedir-me que acompanhasse a Sra. G. nas suas últimas horas; pude, assim, acompanhar esta senhora e a sua família no processo de morte, utilizando o som.

 

A minha mãe (de 85 anos), à excepção das queixas relacionadas com a idade (dores de costas, etc.), era uma pessoa física e mentalmente saudável e autónoma. Na quarta-feira, 22.11. 2017, ainda saiu de carro à tarde, a fim de apanhar ramos para fazer uma coroa de advento.

Durante essa tarefa, deve ter ocorrido esta hemorragia cerebral espontânea, porventura relacionada com a hipertensão com que ela se debatia há alguns meses. Graças a Deus, foi rapidamente encontrada e transportada para o hospital com uma hemiparesia esquerda, apresentando já dificuldades ao nível da fala. Do ponto de vista mental, estava completamente bem.

Mas, com base na ressonância magnética, foi-nos logo comunicado a nós, filhos, que as possibilidades de cura eram muito reduzidas e apenas se ainda fosse possível parar a hemorragia. À noite, foi realizada uma nova ressonância magnética que revelou que a hemorragia se tinha agravado, o mesmo acontecendo com o estado da minha mãe. Nesse momento, ela já não conseguia mexer o pé esquerdo e a capacidade de reacção diminuíra.

Na manhã seguinte, já não reagia e o médico-chefe comunicou-nos que outras medidas (alívio da pressão craniana, etc.) não teriam tido quaisquer resultados e se traduziriam numa diminuta possibilidade de sobrevivência e no facto de a minha mãe ficar em estado vegetativo. Perante isto, decidimos declinar quaisquer medidas de prolongamento da vida , conforme era seu desejo e deixara escrito num testamento vital. Assim sendo, na quinta-feira a minha mãe foi transferida para uma enfermaria onde lhe foi administrada morfina através de perfusor para redução das dores.

Fomos acompanhados pela equipa extremamente atenciosa de cuidados paliativos do hospital de Dachau. A minha mãe já não tinha qualquer tipo de reacção, respirava cada vez pior e com uma expectoração crescente. No terceiro dia, Sábado, 25.11. 2017, o estado da minha mãe agravou-se ainda mais durante a noite, com uma sudação intensa, dificuldades respiratórias, respiração ruidosa, expectoração, rosto escarlate. Era necessário aspirá-la cada vez com maior frequência. Foi-nos dito que ela não se apercebia desta dificuldade em respirar e que não a devia sentir devido à morfina. Tínhamos muita esperança que assim fosse porque, para quem estava de fora, parecia extenuante e aflitivo.

Na manhã de Sábado, o enfermeiro aumentou mais um pouco a dose de morfina. Como o estado de saúde física da minha mãe era bom, levaria 2-3 dias até que o corpo cedesse. Nenhum de nós lhe desejava isso, pelo que esperávamos e rezávamos que ela partisse rapidamente, já que se tratava de uma inevitabilidade. Foi então que, pelas 11,45 h, apareceu a Sra. Seidenath, a praticante de massagem de som. No dia anterior, a enfermeira dos cuidados paliativos tinha-nos recomendado esta senhora e, caso ela tivesse tempo, talvez fosse uma ajuda, visto que permitia aos doentes moribundos libertar-se.

De início, estávamos um pouco cépticos, pois só pensávamos se a minha mãe gostaria da ideia, caso estivesse consciente ou saudável. Mas pensámos que mal não faria e que, se ajudasse, ficaríamos gratos. E foi assim que a Sra. Seidenath veio ao quarto, desde logo irradiando calma; sem falar muito e sem necessitar de muita informação prévia, colocou três taças de som ao redor da minha mãe, sobre a cama. Pediu-me a mim e à minha amiga que ficássemos no quarto, mas que nos afastássemos um pouco da cama para ela poder trabalhar. Recordo-me ainda que ela colocou um taça grande junto aos pés da minha mãe e duas mais pequenas à direita e à esquerda da cabeça, sobre a almofada. Depois começou a percutir levemente, primeiro a taça grande, passando depois para as duas taças junto à cabeça. Ela repetia lentamente esta sequência, originando rapidamente um som muito agradável e uma atmosfera de calma.

Creio que logo ao fim de 2-3 minutos, notei que a minha mãe apresentava uma respiração relaxada, a cor escarlate do rosto esbateu-se e, subitamente, a respiração tornou-se cada vez mais lenta, ocorrendo longas paragens da respiração... menos respirações mas profundas. O rosto voltou a ter uma cor normal. Sei que não estava a acreditar no que via e que olhei interrogativamente para a minha amiga, para saber se era imaginação minha ou se era verdade. Com ela passou-se o mesmo, olhou para mim com ar interrogativo e espantado. Nesse momento, tornou-se claro para nós que o processo de morte estava iniciado, que agora ela podia partir, e parecia-nos simplesmente ser um processo tranquilo. A sudação e a vermelhidão do rosto deram lugar a uma tonalidade normal da pele.

Passado pouco tempo, as paragens da respiração eram cada vez mais longas e tínhamos a sensação que estávamos perante as últimas respirações profundas; o olho esquerdo da minha mãe abriu-se ligeiramente. A Sra. Seidenath disse-me que eu podia aproximar-me dela e fechar-lhe o olho. Perguntei-lhe com um aceno se podia pegar-lhe na mão e ela disse-me que sim. Assim que lhe peguei na mão, a minha mãe voltou a respirar com a mesma dificuldade e esforço que já lhe conhecíamos das suas últimas horas. O rosto voltou também a ficar ligeiramente vermelho. Inicialmente foi para mim um choque, pelo qual me culpei, por ter interrompido o processo de morte com a minha proximidade e o ter-lhe pegado na mão. Esperei sinceramente que a Sra. Seidenath pudesse reiniciar este processo de morte. Calmamente, ela continuou a aplicar o som e não demorou muito para que a respiração se tornasse mais calma e relaxada e a minha mãe pudesse dar o último suspiro em paz. E estava agora tão tranquila como se estivesse a dormir. Eram 11.58 h. Ficámos ali sentadas, surpreendidas; algo inacreditável tinha acontecido, naquele momento foi como um pequeno milagre.

O que se tinha passado ali, como podia ser um fenómeno tão visível e tão rapidamente desencadeado pelo acompanhamento de som, era o que nos perguntávamos mentalmente. Por um lado, um momento tão terrivelmente triste, o de ver partir finalmente a nossa mãe, mas, pensando por ela, foi simultaneamente mitigante o facto de ela ter ganho a batalha em vez de se arrastar ainda durante horas ou dias. Ficámos e continuamos infinitamente gratos à Sra. Seidenath por esta ajuda carinhosa e espontânea. Ela foi como um «anjo redentor» tanto para a minha mãe como para nós. E sentimo-nos privilegiados e gratos por podermos ter estado presentes na sua partida.

As nossas saudações e profunda gratidão à Sra. Seidenath, Família G.  

O meu agradecimento especial à filha da Sra. G., e a toda a família G., por ter permitido que eu acompanhasse a sua mãe e que publicasse o seu relato desse processo.

Deus a abençoe Gabi Seidenath